quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

História Verídica

Grande, alto, forte. Tinha umas mãos enormes. Eu as pensava capazes de construir qualquer coisa. Pensei melhor: construir não, destruir. E foi então que o garçom veio. Informou-me que aquele senhor de cabelos grisalhos, aquele ali na mesa 7, solicitava a minha companhia. Solicitava assim, pedia quase que encarecidamente que eu desse o ar de minha graça ali, na cadeira do lado. Relutei, mas cedi como que num impulso de familiaridade. Ele me parecia tão familiar, era tão familiar. Sentei-me tranquila na cadeira. Ele havia pedido água com gás, um café da casa e um bolo de cenoura com cobertura de chocolate. Empurrou-me aquilo e me pediu que não ficasse à vontade. Contou-me que em sua presença ninguém nunca ficava. Atendi prontamente ao pedido e à vontade não mais fiquei. Em seguida, pediu-me que sentasse em seu colo. Olhei para aquele homem que me aparentava ser novo como o mal dessa nossa pós-modernidade, mas parecia carregar o peso de eras de existência, o peso do sempre, o peso da infinitude, do alfa sem que houvesse ômega. Sentei-me em seu colo, mas não sem antes questionar. Que quer que eu vá fazer aí? Ele me explicou paciente, e com a voz sempre mansa, que eu parecia precisar. Que ali, sozinha, sentada sempre naquele canto, o único lugar do estabelecimento feito para sonhar (era um banco desses de madeira clara, com almofadas cheias de detalhes dourados e que lembrava aquelas colunas gregas, colunas que mais pareciam os braços de Deus, com seus capitéis ornamentados, suas volutas de formas leves), eu parecia precisar e precisar muito. Olha, querida, não está fácil pra ninguém. E continuou que eu parecia frágil, pequena, um pouco maior vista assim bem de perto, mas ainda menor que ele. E parecia sentir frio, mas insistia nos shorts curtos e na flanela jogada por cima do corpo de mulher normal, mas internamente franzino e surrado. Antes que ele continuasse e mais nada sobre mim restasse para ser dito, me atirei em seu colo. Embotados que estavam meus olhos de lágrimas, molhei-lhe a camisa. Chora, chora, menina. Chora que nessa vida nada vigora. Nada dura, nada é pra já, nada é pra nunca. Nada nunca é pra nada não. Você veio me acalentar nos seus braços, no seu calor de homem vivido, marcado pelo tempo? Não, ele riu, vim tirar desse teu peito juvenil toda a esperança que ainda resta de que os castelos que desenhamos no ar não se desfaçam. Vim alertar sobre todas as mentiras que lhe foram contadas, muitas pelo mundo, outras tantas por você mesma. E é isso. Parece-me razoável, mas me diga: ganha o que com isso? Nada mais que prazer, querida, o prazer quase erótico de sentir seus braços finos em volta do meu pescoço, seu corpo contra o meu sexo, sua cabeça recostada no meu peito, seu soluço, sua dissonância, sua desarmonia. Eu tenho isso com muitos rapazes, com muitas moças, mas nada nessa vida vigora. Nada dura, nada nunca é pra nada não. Parei de chorar e meu rosto ainda vermelho, ainda quente, se pacificou. E ele acariciava meus cabelos e ria, ria como se zombasse do meu sofrimento com a experiência de quem sabe que isso um dia passa. Uma hora qualquer passa. Passou a mão no meu ombro direito, estendeu os dedos pelos meus antebraços e perguntou o porquê de tantas marcas. Respondi que algumas eram marcas de batalha, outras não passavam de enfeites, vaidade. De outras tantas nem me lembro a origem. Entendo, criança. E começou a me ninar, e me embalando cantarolava baixinho que só eu podia ouvir, ainda que o movimento já tivesse crescido e agora muitas das mesas estivessem ocupadas por mulheres, homens, idosos, crianças correndo, universitários e suas atribulações, atendentes e suas tribulações, o mundo e esse sim, tão atribulado. E ele cantarolava baixinho que o mundo era como um moinho, me acariciava o ombro direito e continuava a falar baixinho que meus sonhos, mesquinhos demais, seriam todos triturados. E me pedia, ouça-me bem, amor, mas eu não ouvia. Adormeci. Na maioria das vezes não nos recordamos dos sonhos. Outras vezes acordamos nos lembrando com detalhes e, se bobeamos por um segundo, eles se vão ligeiro como se nunca houvessem existido. Algumas outras tantas nos lembramos pra sempre e, dali um tempo, nem sabemos que detalhes foram obra do inconsciente e quais outros foram obras nossas, criadas pra preencher lacunas. Nesse dia, posso garantir: não sonhei. Nada. Nada de colorido, nada de incolor. A mágica não aconteceu. As conexões, cerebrais ou divinas, não se fizeram. Acordei com o chamado do garçom, aquele simpático. Era hora de fechar o estabelecimento. Acordei deitada no meu banco de gazebo, onde outros se sentaram e se sentariam depois da minha partida, mas que era meu. Minha conta estava paga e sobre a mesinha de centro, um último café com uma nota embaixo:

“Nessa vida nada vigora. Nada dura, nada é pra já, nada é pra nunca. Nada nunca é pra nada não. Foi um prazer.”

Soberana do meu café

Aquela abelha estava ali e rondava o meu café. Rondava o meu café e, vez ou outra, por mais que eu fizesse com as mãos nervosas aquele gesto explícito de "saia já daqui", ela pousava na borda e se inclinava, com toda a sua etiqueta, bebericando meu café. O café era meu, paguei por ele. Assim sendo, me entendo como a soberana desse café. Eu, mais ninguém. Poderia matá-la, mas como temo aquele ferrão, grande e gordo, das lembranças tristes da infância, sempre seguidas de lágrimas e de uma carreira desembestada pro colo da mãe. Vou só continuar fazendo gestos de "saia já daqui" e esperar que ela entenda que o café é meu. Cubro a borda larga da xícara com a carteira de cigarros, assim, ao menos enquanto não bebo, ela não beberá nada também. Depois de um tempo, qual não foi minha surpresa ao retirar a carteira e verificar que lá, no meu café, boiava a persistente abelha. Morta, mas soberana do meu café, que eu não mais beberia. Retirei-a da xícara com um guardanapo, envolvi-a com respeito e lhe disse:

"Posso pedir outro café, você, no entanto, não terá outra vida. Vá em paz com a resiliência de quem teve um sonho e até o fim o perseguiu."

sábado, 18 de dezembro de 2010

Eu entro nesse barco, é só me pedir.

Olha, eu sei que o barco tá furado e sei que você também sabe, mas queria te dizer pra não parar de remar, porque te ver remando me dá vontade de não querer parar também. Tá me entendendo? Eu sei que sim. Eu entro nesse barco, é só me pedir. Nem precisa de jeito certo, só dizer e eu vou. Faz tempo que quero ingressar nessa viagem, mas pra isso preciso saber se você vai também. Porque sozinha, não vou. Não tem como remar sozinha, eu ficaria girando em torno de mim mesma. Mas olha, eu só entro nesse barco se você prometer remar também! Eu abandono tudo, história, passado, cicatrizes. Mudo o visual, deixo o cabelo crescer, começo a comer direito, vou todo dia pra academia. Mas você tem que prometer que vai remar também, com vontade! Eu começo a ler sobre política, futebol, ficção científica. Aprendo a pescar, se precisar. Mas você tem que remar também. Eu desisto fácil, você sabe. E talvez essa viagem não dure mais do que alguns minutos, mas eu entro nesse barco, é só me pedir. Perco o medo de dirigir só pra atravessar o mundo pra te ver todo dia. Mas você tem que me prometer que vai remar junto comigo. Mesmo se esse barco estiver furado eu vou, basta me pedir. Mas a gente tem que afundar junto e descobrir que é possível nadar junto. Eu te ensino a nadar, juro! Mas você tem que me prometer que vai tentar, que vai se esforçar, que vai remar enquanto for preciso, enquanto tiver forças! Você tem que me prometer que essa viagem não vai ser a toa, que vale a pena. Que por você vale a pena. Que por nós vale a pena. Remar. Re-amar. Amar.
(Caio Fernando Abreu)

terça-feira, 1 de junho de 2010

Aquela fronteira da alvorada.

E naqueles tempos, garota, eu andava solto demais, largado demais. Ia pelas ruas chutando o cascalho e entornando até a última gota, cantarolando qualquer rock melancólico de décadas passadas. Foi te conhecer pra que eu passasse do fogo ao inferno, do jeitinho que eu queria. Houveram outras. Era uma garota sozinha no bar. Acho que já ali, querida, minha falta de critério estava explícita nos olhares que eu lançava pra qualquer coisa com peitos que se movesse ou quisesse ficar parada, tanto faz, tanto fez. Falta de critério vírgula, podia não ser bom critério, mas algum havia. Porque depois de tantos amores dando em lugar nenhum, meu bem, eu decidi durante a quinta trepada da semana que eu queria mesmo era chafurdar. Quase não consegui terminar o que tinha começado, quis parar pra pensar ali mesmo, no vai-e-vem, no entra-e-sai, no in-and-out. Não precisei. Eu já estava tão acostumado a trepar da forma mais vazia, mais mecânica, mais animalesca. A diferença é que nunca partia de mim, os outros é que me partiam. Partiam e só eu me sobrava pra juntar os cacos. Eu ia procurar outro lugar quente e úmido e apertado onde eu enfiasse o símbolo da minha virilidade patética e minha mente pudesse então vaguear à vontade. E normalmente eu pensava em começar e logo já pensava no fim e no meio colocava alguma coisa além daquilo que obviamente eu deveria colocar no meio das pernas que pra mim se abriam. Fuck music, dirty talking, sex time. Variava. Mas eu falava era da garota do bar. Lembro ainda, lembro bem que eu quis parar e gritar que frankly, my dear, i don’t give a damn! e então ver o vento levar. Lembro que quando acabou saí de cima, fechei os olhos e pedi com força pra que ela não estivesse lá quando eu os abrisse. Pra que me desse espaço pra aparvalhar meu corpo sozinho naqueles lençóis maculados pelo jorro constante de porra e que quando eu enfim acordasse ela tivesse limpado toda aquela sujeira da noite anterior e saído nas pontas dos pés, como uma boa mãe que zelasse pelo meu sono de filho, mas não. Ela não saiu nas pontas dos pés, ela não saiu. Ficou lá deitada, esperando muito mais do que eu podia dar. Ou talvez não. Talvez ela não esperasse nada e minha jurisprudência já fosse recalcada demais nas entranhas pra perceber. Ela foi arremessada pra fora. Claro que só na minha mente, já doente naquela altura, também não são assim que as coisas funcionam. Pensando bem, as coisas não funcionam. Então na vida real a minha irritação velada pela polidez esperou que ela tivesse vontade de ir para que só então fosse, e eu maldizendo, rezando, mandingando pra que não tardasse a vontade a aparecer naquele amontoado de órgãos que eu possuíra tão descompromissadamente. E eu lembrava Sartre e olhava pra ela e pensava que era uma garota sem importância coletiva, uma individua, mas eu olhava era pra dentro. Era pra dentro que eu olhava. Tive pena dela, mas eu tinha era de mim, meu bem. Era de mim que eu tinha. E meu estômago doía, e eu chamei de ressaca, excesso de cafeína, chamei de fome, mas era o vazio. Vazio é o caralho. Vazio em mim só existe agora sendo fome. E então um amigo me ligou querendo preencher aquele vazio que era fome sim, ele me confirmava, e eu falei alto no telefone pra ela entender que chegara a hora, chegara a hora de partir, meu bem. E catou as roupas no chão e eu achei aquela cena tão decadente. Aquele quarto tão decadente, a luz que não favorecia meu corpo nem tão leve, nem tão pesado, decadente também. E foi o meu noir. Eu ali parado olhando embasbacado aquela garota que tinha uns olhos de coral e que sustentava uma expressão barroca. Uma bondade, uma sofreguidão, um Caravaggio. Eu ali parado olhando embasbacado aquela garota e sentindo náuseas que aumentavam na proporção inversa à distância que ela estivesse da rua, sentindo que ao fechar a porta irromperia num vômito solitário. Um abraço frouxo de despedida. Ao menos ela deixou a carteira de cigarros atrás do porta-retrato, ao menos não vomitei. E eu queria sim que todos soubessem, queria sim propagar aos quatro cantos que ninguém podia existir pra mim num dia seguinte. Que eu queria foder, meter e trepar e que fazer amor era coisa doída demais.
E daí numa noite, seguindo o mesmo princípio de gozar e desaparecer antes do sol nascer, você. Tinha uma aparência impecável de atriz de besteirol americano que contrastava com seu charme inteligente de protagonista européia. Tinha os seios firmes, os cabelos longos e louros e fumava e bolava e bebia. Um ar rebelde, de estabilidade intermitente. Não saída de uma linha fordista. E você era completamente louca e ainda mais lúcida do que eu jamais seria, mas ainda não sabia. Não queria nada, não queria ninguém e eu não te queria e nem você a mim. E eu não sentiria sua falta em dias de semana, e você não sentiria a minha. Seríamos partes análogas de uma peça sem encaixe. Um fim em nós mesmos, mas sem o nós, um fim. E você fumava muito mais do que eu, segurando e tragando o cigarro com a destreza de quem exerce um ofício, quase enobrecendo o ato. Fumaríamos como prostitutas do Saint Germain des Prés. La composition parfaite. Foderíamos como coelhos. Beberíamos como bacantes sob as ordens de Dionísio. E eu te daria o que eu quisesse e você se contentaria em não me pedir nada. E foi esse o pacto selado sem que palavra alguma fosse proferida.
E você preferia Kubrick a qualquer outro, definitivamente. Até a Truffaut? Até. Gostava de como ele, abre aspas, enxergava os processos de degradação psicológica das personagens, ele as conduzia à loucura e eu queria ter esse talento, fecha aspas. E eu dizia garota, você já me conduz à loucura, vem cá. E você ria das minhas asserções pra logo em seguida estreitar o olhar e como gata-em-teto-de-zinco-quente me pedia pra que fosse eu a te conduzir à loucura. E eu conduzia sim, pela sua cintura. Pra cima de mim, pra baixo do meu corpo quente, pra dentro de você, pra fora e tornando a entrar. E crispava as palmas das mãos nas minhas costas e nossas bocas se desencontravam porque não buscávamos encontrar nada em lugar algum. E você dizia ser rock inglês e em alguns dias era samba ou blues, mas hoje você me olhava com olhos de jazz e me dizia my funny valentine, sweet comic valentine... E eu achando que você queria cada centímetro de mim, meu bem, e eu dava.
E você bebia, fumava e lia Nietzsche em alemão enquanto eu beijava seu ventre morno. Morno não, em brasa. Nada em você podia ser morno. E você forjava a minha ausência naquele quarto até que a minha língua herética, destrinchando cada segredo do seu corpo esculpido em Carrara, te fizesse perder a capacidade de balbuciar as palavras até mesmo em português. E foi ali que eu notei, foi ali que eu notei, meu bem. Pensei que certa suavidade talvez coubesse, afinal, já havia algum tempo. E me peguei pensando que talvez, só talvez e só por um momento, eu pudesse deslizar meus dedos devagar pelo seu corpo ao invés de te apertar da forma tosca e áspera de sempre. Você me gostava daquela forma dilapidada e inculta, mas talvez gostasse mais dessa nova forma e eu não sabia já naquela hora do que é que eu gostaria. E pensei ainda que você se parecia com qualquer coisa como o Davi de Michelangelo e eu e você como O beijo de Rodin. Deixei que meus dedos esquadrinhassem seu corpo de leve, mas ainda com o receio de garoto tímido que se perde nas novas funções de um velho brinquedo. E seu prazer foi imediato e imediata também foi a minha ruína. Tudo terminou no mesmo gozo intenso de sempre e dessa vez te envolvi depressa nos meus braços meio bêbados, ainda incrédulos no que eu me permitia, mas apertados. E pensava comigo mesmo que era só sexo e a vontade de variar, era sim. E adormeci sentindo seu cheiro embrutecido de sexo, suor, álcool e cigarros mentolados. Não me dei conta de que Hélios surgia. E eu despertei e você tinha ido e eu pensei que coisa boa era aquilo. E pensei ainda mais rápido que idiota eu era mentindo daquele jeito. E senti na pele que o dia tinha amanhecido frio e me enrolei no cobertor esperando passar e não passou e pensei que você podia ter ficado mais e não ficou e me peguei pensando que talvez, só talvez. E fui andando sem rumo, arranha-céus transbordando o caos e eu me transbordando ali. E nos dias que se seguiam eu andava apreensivo, calado, meio bobo até, velando pra manter a impressão da despretensão total que antes me consumia, mas não mais me contemplava. Então pensei que aquilo tudo não passava de uma sensação mal assimilada e que te tocar daquela forma tão sutil tinha me enchido também de sutilezas. E eu repetia que sempre que você saía por aquela porta, meu bem, não me interessava se você retornaria. Mentira.
Ia me acostumando a sentir nos lençóis o seu cheiro prosaico de quem acabara de sair do banho e eu achava aquilo tão familiar, meu bem, era tão familiar. E pensei que eu podia vir a conhecer todas as suas derrotas, todos os seus fracassos. As vitórias não me interessavam, as vitórias são superestimadas, mas os fracassos, esses sim, seriam como um novo pacto inviolável, já que no meu íntimo eu violara o primeiro sem saber se você consentiria. E então eu quis ficar e embora temesse ser pra você como aquele que é permitido mais pela polidez do que pela estima, eu ficava. E acordava sempre com você já de pé, inquieta, sorrindo e apesar de não reconhecer no seu rosto o mesmo sinal das náuseas que a pouco me impeliam a não encontrar nada em ninguém, algum outro sinal, vez ou outra, eu percebia.
Hoje de manhã acordei e você ali, deitada ao meu lado, me acariciava os cabelos com tanta calma, tanto pavor. Enfim havia entrado. Entrou tanto na minha vida que quase não me restou espaço. Tentei retribuir a visita, meu bem, mas na sua porta havia um recado: do not disturb. Então vi num determinado momento você me fitar e posso jurar que ouvi seus olhos pensarem babe, babe, babe, babe, i’m gonna leave you... Saio deixando os cigarros atrás do porta-retrato.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Plantada

Acendi o abajur pra enxergar melhor, olhar melhor pro nada, pra mim, pra dentro. E eu me perguntando sempre quando e de onde brotara essa sua capacidade de se fazer pequeno mesmo quando ocupava um espaço enorme daquele lado da cama. De não estar estando. Seria eu? Minha pele já não tão tenra, eu me olhava no espelho, me colocava de perfil. Meus seios poderiam fazer bom uso de uma cirurgia plástica. Não. Até para cirurgias plásticas ser mais jovem parecia caber. Encolhia a barriga. Subia as mãos que antes levantavam os seios numa tentativa frustrada e tapava a boca. Um grito silencioso ao constatar (mais um vez): eu nada posso contra a gravidade. Dezessete anos. Eram dezessete anos de uma união pacífica, estável e arrastada. Arrastada sim. Arrastada como um carro de boi em tempos idos. Íamos os dois num andar que não vacilava nunca, mas em nada emocionava também. Firmando um passo de cada vez e sem nunca acelerar, remoendo hipocrisia, ruminando ao longo do caminho. Vacas. Éramos como vacas. Pastávamos. Pastávamos e defecávamos o grotesco de tudo aquilo que um dia pareceu lindo e verde e flor. Uma flor feia. Uma flor feia e de plástico. Dali, eu soube, não sairia nunca.

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Hoje é dia...


...de se lixar.

Agradecida.

quinta-feira, 25 de março de 2010

De volta. De novo.


"E nos dias que se seguiam eu andava apreensivo, calado, meio bobo até, velando pra manter a impressão da despretensão total que antes me consumia, mas não mais me contemplava. Então pensei que aquilo tudo não passava de uma sensação mal assimilada e que te tocar daquela forma tão sutil tinha me enchido também de sutilezas. E eu repetia que sempre que você saía por aquela porta, meu bem, não me interessava se você retornaria. Mentira."

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