quinta-feira, 20 de janeiro de 2011
História Verídica
Soberana do meu café
sábado, 18 de dezembro de 2010
Eu entro nesse barco, é só me pedir.

terça-feira, 1 de junho de 2010
Aquela fronteira da alvorada.
E daí numa noite, seguindo o mesmo princípio de gozar e desaparecer antes do sol nascer, você. Tinha uma aparência impecável de atriz de besteirol americano que contrastava com seu charme inteligente de protagonista européia. Tinha os seios firmes, os cabelos longos e louros e fumava e bolava e bebia. Um ar rebelde, de estabilidade intermitente. Não saída de uma linha fordista. E você era completamente louca e ainda mais lúcida do que eu jamais seria, mas ainda não sabia. Não queria nada, não queria ninguém e eu não te queria e nem você a mim. E eu não sentiria sua falta em dias de semana, e você não sentiria a minha. Seríamos partes análogas de uma peça sem encaixe. Um fim em nós mesmos, mas sem o nós, um fim. E você fumava muito mais do que eu, segurando e tragando o cigarro com a destreza de quem exerce um ofício, quase enobrecendo o ato. Fumaríamos como prostitutas do Saint Germain des Prés. La composition parfaite. Foderíamos como coelhos. Beberíamos como bacantes sob as ordens de Dionísio. E eu te daria o que eu quisesse e você se contentaria em não me pedir nada. E foi esse o pacto selado sem que palavra alguma fosse proferida.
E você preferia Kubrick a qualquer outro, definitivamente. Até a Truffaut? Até. Gostava de como ele, abre aspas, enxergava os processos de degradação psicológica das personagens, ele as conduzia à loucura e eu queria ter esse talento, fecha aspas. E eu dizia garota, você já me conduz à loucura, vem cá. E você ria das minhas asserções pra logo em seguida estreitar o olhar e como gata-em-teto-de-zinco-quente me pedia pra que fosse eu a te conduzir à loucura. E eu conduzia sim, pela sua cintura. Pra cima de mim, pra baixo do meu corpo quente, pra dentro de você, pra fora e tornando a entrar. E crispava as palmas das mãos nas minhas costas e nossas bocas se desencontravam porque não buscávamos encontrar nada em lugar algum. E você dizia ser rock inglês e em alguns dias era samba ou blues, mas hoje você me olhava com olhos de jazz e me dizia my funny valentine, sweet comic valentine... E eu achando que você queria cada centímetro de mim, meu bem, e eu dava.
E você bebia, fumava e lia Nietzsche em alemão enquanto eu beijava seu ventre morno. Morno não, em brasa. Nada em você podia ser morno. E você forjava a minha ausência naquele quarto até que a minha língua herética, destrinchando cada segredo do seu corpo esculpido em Carrara, te fizesse perder a capacidade de balbuciar as palavras até mesmo em português. E foi ali que eu notei, foi ali que eu notei, meu bem. Pensei que certa suavidade talvez coubesse, afinal, já havia algum tempo. E me peguei pensando que talvez, só talvez e só por um momento, eu pudesse deslizar meus dedos devagar pelo seu corpo ao invés de te apertar da forma tosca e áspera de sempre. Você me gostava daquela forma dilapidada e inculta, mas talvez gostasse mais dessa nova forma e eu não sabia já naquela hora do que é que eu gostaria. E pensei ainda que você se parecia com qualquer coisa como o Davi de Michelangelo e eu e você como O beijo de Rodin. Deixei que meus dedos esquadrinhassem seu corpo de leve, mas ainda com o receio de garoto tímido que se perde nas novas funções de um velho brinquedo. E seu prazer foi imediato e imediata também foi a minha ruína. Tudo terminou no mesmo gozo intenso de sempre e dessa vez te envolvi depressa nos meus braços meio bêbados, ainda incrédulos no que eu me permitia, mas apertados. E pensava comigo mesmo que era só sexo e a vontade de variar, era sim. E adormeci sentindo seu cheiro embrutecido de sexo, suor, álcool e cigarros mentolados. Não me dei conta de que Hélios surgia. E eu despertei e você tinha ido e eu pensei que coisa boa era aquilo. E pensei ainda mais rápido que idiota eu era mentindo daquele jeito. E senti na pele que o dia tinha amanhecido frio e me enrolei no cobertor esperando passar e não passou e pensei que você podia ter ficado mais e não ficou e me peguei pensando que talvez, só talvez. E fui andando sem rumo, arranha-céus transbordando o caos e eu me transbordando ali. E nos dias que se seguiam eu andava apreensivo, calado, meio bobo até, velando pra manter a impressão da despretensão total que antes me consumia, mas não mais me contemplava. Então pensei que aquilo tudo não passava de uma sensação mal assimilada e que te tocar daquela forma tão sutil tinha me enchido também de sutilezas. E eu repetia que sempre que você saía por aquela porta, meu bem, não me interessava se você retornaria. Mentira.
Ia me acostumando a sentir nos lençóis o seu cheiro prosaico de quem acabara de sair do banho e eu achava aquilo tão familiar, meu bem, era tão familiar. E pensei que eu podia vir a conhecer todas as suas derrotas, todos os seus fracassos. As vitórias não me interessavam, as vitórias são superestimadas, mas os fracassos, esses sim, seriam como um novo pacto inviolável, já que no meu íntimo eu violara o primeiro sem saber se você consentiria. E então eu quis ficar e embora temesse ser pra você como aquele que é permitido mais pela polidez do que pela estima, eu ficava. E acordava sempre com você já de pé, inquieta, sorrindo e apesar de não reconhecer no seu rosto o mesmo sinal das náuseas que a pouco me impeliam a não encontrar nada em ninguém, algum outro sinal, vez ou outra, eu percebia.
Hoje de manhã acordei e você ali, deitada ao meu lado, me acariciava os cabelos com tanta calma, tanto pavor. Enfim havia entrado. Entrou tanto na minha vida que quase não me restou espaço. Tentei retribuir a visita, meu bem, mas na sua porta havia um recado: do not disturb. Então vi num determinado momento você me fitar e posso jurar que ouvi seus olhos pensarem babe, babe, babe, babe, i’m gonna leave you... Saio deixando os cigarros atrás do porta-retrato.
quinta-feira, 15 de abril de 2010
Plantada
Acendi o abajur pra enxergar melhor, olhar melhor pro nada, pra mim, pra dentro. E eu me perguntando sempre quando e de onde brotara essa sua capacidade de se fazer pequeno mesmo quando ocupava um espaço enorme daquele lado da cama. De não estar estando. Seria eu? Minha pele já não tão tenra, eu me olhava no espelho, me colocava de perfil. Meus seios poderiam fazer bom uso de uma cirurgia plástica. Não. Até para cirurgias plásticas ser mais jovem parecia caber. Encolhia a barriga. Subia as mãos que antes levantavam os seios numa tentativa frustrada e tapava a boca. Um grito silencioso ao constatar (mais um vez): eu nada posso contra a gravidade. Dezessete anos. Eram dezessete anos de uma união pacífica, estável e arrastada. Arrastada sim. Arrastada como um carro de boi em tempos idos. Íamos os dois num andar que não vacilava nunca, mas em nada emocionava também. Firmando um passo de cada vez e sem nunca acelerar, remoendo hipocrisia, ruminando ao longo do caminho. Vacas. Éramos como vacas. Pastávamos. Pastávamos e defecávamos o grotesco de tudo aquilo que um dia pareceu lindo e verde e flor. Uma flor feia. Uma flor feia e de plástico. Dali, eu soube, não sairia nunca.
quarta-feira, 14 de abril de 2010
quinta-feira, 25 de março de 2010
De volta. De novo.
"E nos dias que se seguiam eu andava apreensivo, calado, meio bobo até, velando pra manter a impressão da despretensão total que antes me consumia, mas não mais me contemplava. Então pensei que aquilo tudo não passava de uma sensação mal assimilada e que te tocar daquela forma tão sutil tinha me enchido também de sutilezas. E eu repetia que sempre que você saía por aquela porta, meu bem, não me interessava se você retornaria. Mentira."